

Catulo da Paixão Cearense
Um pássaro engaiolado,
mestre de canto e harmonia,
disse a um relógio cansado
de tanto dar meio-dia :
-Relógio, isto não tem jeito!
Até parece chalaça!
Eu canto, sem ter proveito
e tu trabalhas, de graça !
Queres ouvir um conselho ?
Vê lá se é do teu agrado :
tu te conservas parado,
eu fecho a minha garganta,
fazendo como esse espelho,
que não dá horas nem canta !
Eu já estou desencantado
de cantar sem resultado.
E disse o relógio : - Amigo,
o mesmo se dá comigo.
Mas o espelho disse : - Não !
Nenhum dos dois tem razão.
Nenhum pássaro gorjeia,
sem ter a barriga cheia.
Nenhum relógio tem vida
sem o sustento da corda,
que a corda é a sua comida.
Eu vivo neste abandono,
sem dar despesa ao meu dono.
Sem comer corda ou alpista,
trabalho e, nesta canseira,
estou sempre retratando,
pois, quer queira, quer não queira,
tenho de ser retratista !
E, desde que fui criado
e comecei a espelhar,
nunca vi um retratado,
que, em mim se vindo mirar,
dissesse : - Muito obrigado!
que é modo civilizado
de se pagar, sem pagar.
Catulo da Paixão Cearense
1863/1946
Todos os direitos reservados ao autor
Biografia
Poeta brasileiro nascido em São Luís,
Estado do Maranhão, cujas letras exprimiram a ingenuidade e
pureza do caboclo, cativando a sensibilidade do povo, pioneiro
do Nordeste a ter uma letra sua gravada em disco.
Filho do ourives Amâncio José da Paixão
Cearense e de Maria Celestina Braga, aos dez anos mudou-se com
os pais, para a fazenda dos avós paternos, no sertão cearense.
Assim passou parte da infância no sertão do Ceará e ainda
jovem transferiu-se para o Rio de Janeiro (1880), onde se
tornou conhecido como seresteiro.
Escreveu letras para modinhas, choros
e canções de autores célebres da época, como Anacleto de
Medeiros e Ernesto Nazaré. Sua letra mais famosa foi para Luar
do sertão, modinha de João Teixeira Guimarães, o João
Pernambuco, que se tornaria um clássico da música popular.
Entrou definitivamente para os anais
da música brasileira ao trazer o violão das rodas de
seresteiros para os conservatórios de música (1908), quando a
convite do Maestro Alberto Nepomuceno, fez um recital de
violão no templo da música erudita de tradição européia no
Brasil e foi aplaudido de pé.
Entre seus livros de poemas, cabe citar Meu
Sertão (1918), Sertão em flor (1919), Mata iluminada (1928) e
Alma do sertão (1928). Outras canções suas de sucesso foram
Ontem ao luar e Tu passaste por este jardim e sua obra musical
foi reunida numa coletânea publicada para violão solo (1963).
Morreu empobrecido em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro,
mas seu cancioneiro levou Mário de Andrade a classificar o
autor como o maior criador de imagens da poesia brasileira.
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